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Sherpasmania

... albergue de poemas, poesias e... outras manias, bem sentidas, por sinal!!!...

Sherpasmania

... albergue de poemas, poesias e... outras manias, bem sentidas, por sinal!!!...

13
Ago04

...tempos da...lavoura, com caça!!!...

sherpas

…quando me ponho a recordar, o Alentejo da minha infância…dou comigo a pensar, no que era, no que foi, no que não alterou, no que pouco… ou nada, mudou!!!...Foi terra de abusos, só de alguns, dos mais forrados, de muitos costumes, de muitos usos, de tradições em festas e romarias, pagãs e religiosas, de boas gentes, as mais humildes, de respeitos profundos, pelos mais velhos…um posto!!!...

 

Ainda me recordo do hábito dos mais novos, quando passavam pelos tios, pelos padrinhos, pelos parentes mais idosos…pedindo, respeitosamente, a bênção!!!...Estás abençoado, rapaz, atiravam benevolentes…aos catraios, inocentes!!!...E, quando tinha de cortar o cabelo, na barbearia, centro de conversa, de tertúlia, de encontro de amigos, de conversas sobre caças, sobre fados, a do Mestre ______________ exímio tocador de guitarra, tal como o filho, seguidor do pai, na arte e na inclinação musical, pela dita, quando o fazia, encolhido na minha pequenez, ouvia!!!...

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…tinham de me pôr uma banqueta, na cadeira do barbeiro onde, com toalha branca, imaculada, atada ao pescoço…me sujeitava àquele sacrifício, a de cortar a guedelha, já comprida!!!...Olhava para o espelho, olhava para o alto, para a parede, onde se destacavam duas imagens com cenas de caçaria, aos coelhos e aos patos, respectivamente e, como se nada, ia ouvindo!!!...Ouvia musica dedilhada na guitarra, acompanhando um que outro fado, dum cliente amigo, cantor por diversão, tal como peripécias mil, dos caçadores alentejanos, gentes pobres, que nos seus tempos livres, poucos, por sinal, com a respectiva espingarda, comprada a muito custo, com poupanças mirabolantes, em qualquer campo, ali ao pé, a um passeio…com meia dúzia de tiros, apanhavam lebres, coelhos ou perdizes, para alimento da família e vender…aos liberais, comerciantes, carpinteiros, mecânicos, farmacêuticos, engrossando assim…os seus proventos, que eram poucos, mui reduzidos!!!...

 

Essas caçarias, ouvia-as eu…quando miúdo, no barbeiro, onde ia cortar o cabelo!!!... …o barbeiro, o mestre, assim lhe chamávamos, caçador e tocador de guitarra, tinha a sua barbearia, mesmo ao pé de dois ou três cafés, frequentados por lavradores de pouca monta que, ao longo do dia, por ali permaneciam, bebendo e jogando, petiscando e confraternizando, uns com os outros, ora dentro, ora fora, na esplanada, consoante as condições climatéricas, desde o dia um de Janeiro até ao dia 31 de Dezembro, quer dizer…ao longo de todo o ano!!!...Intervalavam para irem a casa, por vezes, almoçar ou dormir…pouco mais!!!...

 

Eram do tipo macho latino, com alguns criados, os que amanhavam as terras… não viviam em palacetes, eram mais modestos mas…com pretensões!!!...No respeitante ao trabalho…faziam gazeta!!!...Quando muito uma caçada, uma passeata pelas terras, um falar com os pastores ou ganadeiros que tinham sob a sua alçada, às suas ordens!!!...

 

…recordo três irmãos que, assim viveram, enquanto durou a herança do pai falecido, que deram estudos aos filhos, que rebentaram com tudo…não fazendo nada, nem sequer, mantendo o que tinham recebido!!!...Com a vida que tinham, no café, ora dentro, ora fora, na esplanada…numa de preguiça assumida, ainda se davam ao luxo de criticarem os que labutavam, os que, dum lado para o outro, preocupados, ocupados, por vezes, por ali…passavam!!!...

 

Vidas sem préstimo, estas e outras, naqueles tempos, os da lavoura, quando nos campos, verdes e viçosos do Alentejo, o do Alto, em qualquer recanto, a olho nu, ali ao pé, víamos bandos de coelhos, perdigotos, nas searas, atrás da mãe, lebres, com fartura e…a caça, não tinha limites, nem fronteiras, como agora!!!...

 

Quadros, daqueles tempos, os do passado, os de triste memória, os de penúria, para alguns…mais famosas, boas, quiçá, para os das grandes regalias, meia dúzia de outros, imprestáveis, lânguidos e preguiçosos, não grandes senhores, simplesmente herdeiros, com algumas terras, com algum gado, para não falar, como já falei, dos…latifundiários, pois então!!!... …além da caça… que vendiam, para engrossar a economia caseira, os mais pobres também tinham um pedaço de terra emprestada pelos patrões, o brejo ou vergel, terra de pouco préstimo, escassa… um quintal, lá em casa, onde plantavam algumas batatas, alguns vegetais, alguns legumes, uma que outra árvore de fruta, uma oliveira e…pouco mais!!!...

 

Iam vivendo, no patamar de baixo, no limiar da pobreza!!!...E, os que não se iam pelas tascas, não gostavam de copos, não bebiam, para dar à língua, para falarem um pouco, quando podiam…faziam-no no barbeiro, na loja do sapateiro, numa que outra carpintaria, na loja do comerciante mais próximo, nos bancos do adro da igreja, sei lá!!!...

 

Estava tudo, devidamente, compartimentado, em sectores bem delineados, os superiores, donos e senhores de tudo e mais alguma coisa, os que afloravam na agricultura e no gado, aos poucos, os da mediania, os de profissões liberais e os dos trabalhos braçais, os campónios, mão-de-obra barata, os do sol a sol, os que vegetavam, é evidente!!!...Sherpas!!!...

 

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