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Sherpasmania

... albergue de poemas, poesias e... outras manias, bem sentidas, por sinal!!!...

Sherpasmania

... albergue de poemas, poesias e... outras manias, bem sentidas, por sinal!!!...

17
Ago07

... era pequeno!!!...

sherpas

 ... era pequeno,

tinha o meu lagarto na mão,

como tantos amigos meus,

com os seus,

naquele dia de procissão,

longas filas de fiéis tinham partido da Igreja Matriz

ao som dos sinos que se ouviam, das rezas que o padre entoava,

passadas lentas, pausadas, solenes,

fatos de gala, imagens nos andores,

063

sorrisos, dores,

dos endinheirados, das beatas, dos conformados,

lágrimas de saudade, arrependimento,

promessas que se cumpriam,

lá iam,

 

um diz que se diz,

curiosidade dos que ficavam, não cumpriam a tradição,

época festiva, recordação tão boa,

quando petiz,

irrequieto, travesso,

não dado, mais avesso,

gostando da festa, como festa,

não envergando opa roxa,

não sendo trouxa,

não ia na cantiga do sacristão,

em missa ou procissão,

precipitado como sempre, extenso grupo que se atirava estrada fora,

não esperava, não cumpria,

ia embora,

 

passávamos no Senhor das Almas, pequena capela junto à estrada,

fazíamos o sinal da Cruz,

quando nos persignávamos, flectíamos os joelhos,

como víamos fazer aos mais velhos,

pardais à solta, como revoada,

subíamos os degraus, espreitávamos os santos do altar,

mais uma Páscoa, mais um lagarto,

bolo da massa finta com ovo na barriga inchada,

guloseima que aguardava altura própria,

depois da cerimónia,

 

tempo de descansar,

aproveitávamos aqueles bancos de alvenaria

colocados no exterior da capela, nos lados da frontaria,

pintura recente, ponto em branco,

antevisão da festa com romaria à Senhora da Vila Velha

sob forma de procissão,

escassos quilómetros do centro, ribeira grande lá ao fundo,

pegos e recreio, nosso Mundo,

escapadas nas tardes quentes do Verão

que se aproximava,

pensava

enquanto a olhava lá de cima,

 

sentados e felizes, agarrados aos lagartos,

no santuário, destino dos crentes,

prevendo a chegada que demorava,

ansiosos,

tão inocentes,

 

só se comiam depois da chegada da Santa ao local,

pequena elevação ladeada de oliveiras,

saída da igreja principal

para a igreja mais bonita que conheço,

forrada de azulejos,

antiga vila pejada de segredos

com covas dos mouros, estórias que se contavam de boca em boca,

sepultura dum padre numa certa passagem,

que se não podia pisar, sacrilégio, pecado grave naquelas mentes

simples as gentes,

gulosos, frementes,

com seus lagartos de massa finta, ovo no bucho,

aguardávamos o desfile que se aproximava,

já soava,

 

discurso feito pelo padre à Virgem,

dispersão,

confusão,

depois do preito, da romaria da Vila Velha,

quando a terra era mais pequena,

tantos anos passados,

tempo de folares, de lagartos,

de pintainhas... para as meninas!!!... Sherpas!!!...

 

17
Ago07

... largo dos... poetas!!!...

sherpas

... foram grandes, sendo pequenos,

palradores, grandes engenhos,

da arte esgrimiram versos,

compuseram tramas, contaram aquilo que viram,

leram, entoaram alto,

mostraram o que valiam,

DSC04105

épocas recuadas, cantos da Terra,

passagens como voragem,

narração que entretém,

centra toda a atenção,

letra duma canção,

risota, certo desconforto,

café que se toma, absorto,

traje cinzento, permanente,

estando sentado, sempre ausente,

 

fumo que se espalha pela face,

aguardente que não está presente,

chapéu quase caído,

olhar na chávena vazia,

perna cruzada, na esplanada,

tento de noite, fuga do dia,

mente repleta, manga de alpaca,

heterónimos em que se esconde,

vivendo a vida de longe,

 

mantendo seu traje de frade,

brincando com tudo, jocoso,

porque lhe dá brilho, grande gozo,

risadas que provoca a eito,

com desplante, imenso jeito,

sentado como farsante,

goliardo assumido,

divertido,

 

fugitivo da clausura alentejana,

sentado na rua, alarve que se explana

quando mostra o que declama,

povoléu que se avoluma,

gargalhar que se espalha, entoa,

em qualquer canto se arruma

deambulando por Lisboa,

 

sátira de momento, inspiração,

retrato do galhardo, do nobre, da prostituta,

do vulgar, do aldrabão, do que trabalha e luta,

palavras que lhe surgem,

ocasião,

negação, vida voluta,

ornato do que lhe apraz,

que descarrega, quando faz,

 

galante perante as damas,

aventureiro, navegante,

soldado do imprevisto,

rodeado de imagens, de chamas,

trinca-fortes, arrogante,

quando novo, fogoso ainda,

patriota, rebelde, amante,

infortúnio como lema, como sorte,

pouco antes da sua morte,

obra de grande vulto,

cântico como proeza,

destreza no pensamento,

 

encanto tão demarcado

na canção, no verso, no soneto,

respeito pelos avoengos,

preito, gratidão,

épica descrição dum Povo,

comparação a Deuses, Deusas,

quando espalha palavras densas,

quando as arruma em cantos,

quando as descreve com zelo,

mostrando sua Nação,

seu enlevo, devoção,

 

diáspora como destino,

épocas que confluem,

se agregam quando se unem,

obras diversas, caminho,

posições em que os colocaram,

satírico, como gozando,

elevado no pedestal,

lá no assento etéreo, tão alto,

sentado, observando,

estátuas daquele largo

por onde passo, reparo!!!... Sherpas!!!...

 

 

17
Ago07

... ninguém!!!...

sherpas

 ... figura imperceptível, ralinho de corpo, calado,

encolhido mais do que deve,

envergonhado da sua pobre existência,

cabisbaixo, quando se desloca dum para outro lado,

não se vê,

fazendo por isso, consegue,

DSC04539

lá vai no seu percurso rápido, concentrado,

cismático, pontinho tão curto,

apóstrofe numa linha, sem qualquer valor,

no extenso texto da vida que se escreve

sob qualquer pretexto,

fora do contexto,

quase perdido, colado,

 

pés silenciosos que não pisam,

não esgrime, afasta do contacto,

olhos que não visam,

sem cheiro, sem tacto,

boca cerrada, língua parada,

num ir, num vir,

deambular por caminho de ninguém,

não sendo,

temendo outros e vidas,

nas suas idas,

nas suas vindas,

 

casa, trabalho,

tão pouco valho,

recolhimento, introversão,

apagamento consentido,

negação,

ralinho de corpo,

peso morto,

 

repentinamente algo se muda,

qualquer acrescento no tacão do sapato,

mais alto, mais direito,

olhos abertos, apanhando de frente,

na fronte de todos, tipo perfeito,

corporizou-se de repente,

passou a ser gente,

 

que teria acontecido,

pergunta que paira no ar,

sussurros, burburinhos

perante o desconhecido,

utentes destes caminhos

que o conheciam, ao cruzar,

 

pessoa de círculo mais próximo,

colega de labuta na oficina,

esclareceu naquela esquina

pedindo segredo, querendo ser anónimo,

que tinha subido de posto,

que tinha seres a quem escarrava,

quando exigia, quando ralhava,

via-se-lhe estampado no rosto,

 

prepotência que gozava,

mais elevado do que antes,

dando-se ares, manias,

provocando antipatias,

 

fazem-se assim,

parece-me a mim,

sobranceiros, pedantes,

quando alguma coisa se tem,

passa-se a ser alguém,

mais além,

continuando sendo... ninguém!!!... Sherpas!!!...


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